Absolutismo
by Melanef on Sep.13, 2009, under 'Bout Me
Há o que? Dois meses? Que houve uma poesia. Que houve a última publicação. Talvez um pouco mais de tempo desde um texto que dissesse de mim mais do que eu gostaria que pensassem.
Não que não houvessem coisas a serem ditas. Haviam. Centenas. Inúmeras. Crescentes e borbulhantes. Em um estado de ebulição, pedindo para serem gritadas, cospidas, vomitadas sobre quem quisesse ler ou sobre o passante distraído na rua. Em um instante. Instante incostante. Lunático constante. Constante incostante.
E hoje há de novo. Há ainda. Há sempre, há porque existo. Há porque o ar é o meio no qual viajam as moléculas de Oxigênio (O2) que é o sustento destas células. Estas, que viajam o corpo todo levando alimento às outras células. E estas também, que se contraem e esticam para movimentar dedos e mãos. E estas que processam o alimento recém ingerido. E estas que neste exato instante constroem essas palavras a serem digitadas por aquelas outras que são ocupadas por movimentar. Enquanto isso ocorre, cá estou eu. Cá estou eu a pensar, a ruminar, a remoer, engolir e regurjitar o que permeia o pensamento.
O que permeia o pensamento ?? Não sei, só sei que nada sei. Frase célebre. Parecer célebre. Ser célebre por tabela. Ser por parecer.
O que importa é o que sinto. E o que sinto, hoje, agora, há algum tempo, é um estar absoluto. Não é o estado de “estar” que é absoluto, mas sim eu que me sinto estar absoluto. Absoluto, ou completo, ou preenchido.
Há instantes, pensei em traçar um paralelo entre a ação de escrever com objetivo e o ato de amar. Ambos são bastante semelhantes n’alguns aspectos. No primeiro, deve-se esconder do leitor o que deseja-se que ele descubra por sí só, mas deve-se também dizer o que ele precisa saber para deduzir. É o dizer-sem-dizer, o dizer obscuro, por meneios, por voltas e trejeitos, seja o que for. No amor, ao que parece do pouco que aprendi dessa vida, deve-se também amar-sem-amar, querer-sem-querer. Deve-se evitar dar a certeza ao outro, se não tudo torna-se fácil demais. Não que deva ser difícil, deve-se achar o meio termo. Igual escrever com propriedade. Escrever com propriedade e amar com vontade estão intimamente conectados nessa característica.
Mas isso cansa. Sim, cansa. Notem como escrevo. Poderia ter descrito as mesmas idéias que nessas linhas até aqui em N! (êne-fatorial) parágrafos e teria sido muito mais instigante e interessante (ou não, há controvérsias) ao leitor, e no final ele se sentiria muito mais satisfeito de ter decifrado a mensagem escondida em tantas artimanhas. E devo admitir que no amor atuo da mesma forma. Sei que talvez eu esteja privando a pessoa da delícia da descoberta por mérito próprio quando digo a ela a respeito do meu interesse. Mas cansei. Cansei de fingir não sentir. Cansei de jogar. Porque deve-se jogar?
Tanto amar quanto escrever são dois esportes cujo melhor resultado possível é o empate. Para que uma composição valha a pena, tanto autor e leitor devem empatar, pontuando simultaneamente em cada oração, em cada proposição e explicação, n’onde o primeiro pontua ao desafiar e o segundo pontua ao cumprir o desafio proposto ao seu intelectuo. Os amores que dão certo são assim também. Caso um dos dois vença, a relação está fadada à dependência de um ou de outro, ao invés de ambos. E é incrível como é possível que o ambos possa ser substituido por um ou outro simplesmente, como se fossem mesmo equivalentes.
Assim sendo, uma vez que eu mesmo venho a propor e me desarmo na incapacidade de continuar a propor, será que estou decretando um empate em zero a zero, ou estaria eu entregando os pontos ao adversário-companheiro-parceiro-amante sem mais nem menos?
Acabei de dizer, em uma conversa, que privar alguém de uma provação ou de um sofrimento é a maior injustiça que alguém pode cometer a este outro alguém. Isso porque é sofrendo que as pessoas crescem. Infelizmente, o mundo é uma grande polidor de pedras. “(…)Um grande tambor que gira sem parar, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, cheios de água, pedras e cascalho. Moendo tudo o que está dentro e girando sem parar. Polindo aquelas pedras feias até transformá-las em gemas bonitas. A Terra é assim, e gira por causa disso. Nós somos as pedras. E as coisas acontecem conosco… drama, dor, alegria, guerra, doença, vitória e maus-tratos… ora, são apenas água e areia para nos erodir. Para nos moer. Para nos polir até ficarmos bonitos e brilhantes.” (PALAHNIUK, Chuck. Assombro, p. 101). Isso se expande a tudo, cada contato, cada sensação, cada impressão fazem parte deste processo de polimento e lapidação. Cada relação é uma lasca. Se essa lasca nos faz melhor ou pior, não interessa, mas tudo é uma lasca, e a diferença que isso faz para nós é quanto a presença ou ausência dessa lasca faz falta ou não, quanto isso nos afeta.
Ao mesmo tempo, essa também é a maior prova de compaixão, a maior prova de justiça e inteligência humana. Por gostarmos, querermos bem a alguem, somos incapazes de deixar que as pessoas passem pelas próprias provações e sofrimentos sem que nós tentemos diminuir-lhes a dor, sem saber, ou mesmo sabendo que com isso estamos privando essas pessoas do próprio crescimento, da própria melhora, do progresso.
Será que então, quando me nego a jogar o jogo, quando recuso-me a esconder por esconder sabendo que o melhor resultado possível é um empate, será que neste momento, eu não estou privando-a de me conhecer? Quer dizer, faço isso justamente para que ela me conheça de cara, mas será que não tiro algo dela como aquele gostinho de me conhecer amplamente como só quem descobre pode sentir, diferentemente de quem é ensinado?
Espero que não. Sinceramente. Espero que não esteja privando-a disso. Porque simplesmente prefiro as coisas ditas sem medo. Prefiro entregar-me. Prefiro dizer. Dar a cara a tapa. Estou aqui. Uma face. Não. Duas faces. Esperando. Pelo seu tapa. À sua total disposição. Para morrer. Por você. Para o que. Você quiser.
Em suma. Sinto-me absoluto, completo, reconstruido. Vítima de epifania. Sim. Imobilizado neste momento. De tamanha maravilha que admiro. O mundo. Sim. Belo. Respeitável. Da natureza ao fútil. Do profundo ao singelo. Do tecnológico ao emocional.
Passar bem.
Post Revisions:
- 13 September, 2009 @ 14:50 por Melanef

September 15th, 2009 on 6:54 pm
Bonito texto, complexo… complexo com sua, nossa mente =)
Acredito que sentimento é algo que não pode ser medido, mesmo que alguém aparente ser mais dependente de outro não significa que este ama mais. As pessoas tem formas diferentes de demonstrar, não podemos exigir que sintam da mesma forma que nós, não é?! =)
Seja como você é… ser direto é a melhor coisa, pra que ficar com joguinhos e enrrolação?
Fico feliz que esteja bem.