Desencontros
by Melanef on Dec.07, 2009, under 'Bout Me
Ouso dizer que vivi a vida inteira num deslugar. Não me refiro ao lugar físico. Refiro-me ao lugar, ou melhor, ao deslugar que foi o meu mundo interno. Um deslugar, sim. Um lugar onde me sinto deslocado. Deslocado de mim mesmo quando em mim mesmo. Não, pera, na verdade, acho que não. Vamos recomeçar.
Partamos do princípio do deslugar. O que é um deslugar mesmo? Uma situação de perda de parâmetros comportamentais onde deixaríamos de agir mecanicamente para agir criativamente. Pelo menos é isso o que aprendi hoje. Um deslugar te coloca sujeito à subjetividade, sujeito ao acaso. Mas um acaso criativo, um acaso desejado ao mesmo tempo que indesejado, uma vez que indeseja-se estar num deslugar.
Então, tendo este recapitulado, retomo dizendo que não, ao contrário. Vivi a vida inteira num lugar. Dentro de mim mesmo sempre foi um lugar. Um lugar carregado da sua chatice. Carregado das suas regras. Carregado dos seus parâmetros comportamentais que sempre estiveram a determinar o padrão esperado. Que eu esperei. Que esperaram de mim. Que eu esperei que o mundo esperasse. E assim perdi a melhor fase da vida. Deixei de viver minhas loucuras subjetivas. Deixei de sonhar, deixei de viajar por aí. Para me prender ao real, ao lógico, ao concreto. Por que não abstrato? Por que não fantástico?
Mas tá, uma vez ou outra me desencontrei desse encontro moroso. Uma vez ou outra devo ter estado num deslugar. E quando foi mesmo? Ah sim. Me recordo bem. Uma vez. Que vivi. Vivi. De verdade, vivi. Um deslugar. Tão conhecido lugar. Foi palco. Para a desexperiência. De viver um deslugar. De ser coadjuvante e protagonista. Ao mesmo tempo. De viver e ser vivido. Tal vez foi quando conheci. Reconheci, porque dizem que esse tipo de gente a gente conhece desde sempre e só não se lembra.
Eu os conhecia. De outra vida, ou vai ver do período de desvida. E os reconheci. Logo que os vi. Os doze anos são uma idade tardia para conhecer seus primeiros melhores amigos? Os reconheci e soube. Meio sem saber. Mas soube. E perguntei quem eram. E disseram. E o que respondi? “Sou filho do meu pai” Me lembro. Ainda. Memória guardada. A sete chaves. Como tesouro. Que é de fato.
“Sou filho do meu pai”. E que resposta é essa? Como se todos soubessem quem, diabos, é meu pai. Ainda se soubessem quem sou eu talvez soubessem quem é meu pai e aí saberiam quem sou eu, mas para isso precisariam saber antes quem sou eu, e se soubessem quem sou eu, para que perguntar quem sou eu?
E foi meio assim. Que me desencontrei. De mim mesmo. E fui livre. Para criar. Para ser. Para conhecer. Foi por pouco tempo. Se pudesse escolher, viveria mais. Viveria de novo. Viveria outra vez. Repetidas vezes. Viveria um repeat eterno, um while um maior que zero. Looping infinito do momento de desencontro.
Mas não posso reclamar. Vivo desses momentos raros ainda. Vez ou outra. Quando encontro-os. Ou quando encontro outros também. Daquele tipo. De amigo. Daquele tipo. De irmão. Que nunca tive irmão. Daquele tipo que se ama. O amor que nunca amei.
E admito que vivi. Recentemente. Foi assim. Estava eu num lugar. Lugar comum. Lugar público. Lugar massante. Lugar cansado. E não notei, mas por um instante, me soprou a satisfação. De na minha doce e gentil ingenuidade, eu achar que levava um lugar a alguém que eu achava que estava num deslugar como se estar num deslugar fosse algo ruim. Lembre-se, e não me julgue, até agora pouco, eu achava que estar num deslugar fosse algo ruim. E eu achei sim. Que ela estava num deslugar. E quis levar a ela o meu lugar. E ela disse que também me achava estar eu no meu deslugar. E quis me trazer o seu lugar.
E então, num momento, estávamos ambos tentando expandir nosso lugar para abranger o outro que acreditávamos estar num deslugar. O que não sabíamos é que esse choque de lugar e lugar. Esse encontro. Essa tentativa de mesclar um par de lugares. Isso tudo só fez com que a coisa se tornasse um deslugar. E então, notei, sem saber ainda a notação certa. Experimentei. Notei. Tentei. Acompanhar, porque é difícil, sabe?! Percebi que o deslugar que me encontrei na ausência do meu ou do lugar dela formado justamente pela tentativa de abranger ambos os lugares. Esse deslugar, percebi, era justamente onde sempre quis estar.
Post Revisions:
- 7 December, 2009 @ 23:13 por Melanef
