Relatório da Missão
by Melanef on Feb.07, 2010, under 'Bout Me
Todos estão sós. Não importa se as pessoas têm parceiros, se estão noivos, namorando, casados ou o que. Em algum momento, todos estão sós. Nem que seja antes de dormir, deitado na cama, nem que seja no ambiente de trabalho, nem que seja durante uma transa casual.
Passei um mês visitando Omegle, Chatroulette e Aardvark. Do Chatroulette, seguem as estatísticas:
- 90% são homens;
- dos quais 60% estão se masturbando diante da câmera;
- dos 10% restantes, 8% são “shemale”;
- dos 2% restantes, 1,5% são mulheres que só aceitam conversar com outras mulheres por que os homens são trolls;
- dos 0,5% restantes, 0,2% são feias;
- dos 0,3% restantes, 0,2% são comprometidas de alguma forma;
- a última fatia de 0,1% mora tão longe que é melhor nem sonhar.
No Omegle, pelo não-suporte a webcam, aparentemente as estatísticas são melhores:
- 65% são homens;
- 15% são “shemale”;
- 18% são mulheres;
- 2% são pessoas falando coisas bizarras.
Diria que em um mês conversando com pessoas assim, aleatoriamente, nas minhas horas vagas, consegui reunir um total de doze pessoas. Todas as pessoas compreendidas nas idades de 14 a 22 anos. Destas doze pessoas, são eles:
- Um holandês gente boa, um bom amigo;
- Três coreanas;
- Uma chinesa;
- Duas inglesas;
- Quatro americanas;
- Uma brasileira (paulista).
Dessas pessoas todas, três são comprometidas. Ou eram, antes de me conhecer.
Uma delas terminou no dia seguinte à nossa conversa. No dia seguinte ao término, já estava dizendo me amar. Incrível a velocidade dessa tal internet.
Outra, quando me conheceu, estava com um dilema: um “long distance relationship” com um garoto mais novo que ela, que ela não se sentia atraída por ele; e um rapaz com pinta de garanhão da vizinhança. Não ajudei em muita coisa, falei o que a gente fala nessas ocasiões, para ela pensar com calma, ser honesta consigo mesma e correr atrás do que queria de verdade. Bem, agora ela não tem mais um “long distance relationship” com um garoto na Flórida.
A última, gostei de ver, mantém se fiel ao namorado. Um casal fofo de chineses. Ela é toda respeitosa, ralhou comigo quando me referi a ela como “dear” ou “baby”, comum em países menos conservadores. Gostei, nos tratamos como irmãos agora. Sempre quis uma irmã mais nova que morasse do outro lado do mundo.
Conheci uma americana com os mesmos dilemas que eu, outra com o mesmo pensamento que eu. Outra com o mesmo gosto musical. Conheci gente que era inocente e gente que era metida a malvada. Mas o que me impressionou é que todo o mundo está lá pelo mesmo motivo mas dizem sempre as mesmas mentiras (salvo raras exceções).
Cheguei a desenvolver um script de como me apresentar evitando a banalidade com a qual as pessoas tratam esse tipo de coisa hoje em dia. Normalmente, as pessoas entram na sala de chat e já lançam logo um “asl” (age/sex/location — idade/sexo/localidade) para saber tudo o mais rápido possível. Deus?! Para quê?! Por que não aproveitar a conversa com calma? Prefiro fazer como me acostumei a fazer:
“Hi” — “How are you?” — “What’s your name”
Ninguém NUNCA espera que se pergunte coisas comuns como o nome e como estão. O bom é que você já descarta quem está em busca de sexo virtual. E já sabe o sexo da pessoa só de saber o nome, sem a grosseria da pergunta “boy or girl?”.
Depois disso, ao invés de correr para “Where are you from” ou “How old are you”, hora de supreender de novo: “What do you like to do? What’s your interests?!”. Com isso, você toma um ar mais sensível. As pessoas deixam de tratar-te como um simples fluxo de dados atravessando cabos de fibra óptica. As pessoas, em alguns casos, finalmente passam a te tratar com alguma consideração, como se você também fosse uma pessoa.
Depois disso, podemos passar ao que você quiser conversar. O garoto holandês me impressionou com uma vontade absurda de ajudar a resolver os problemas das pessoas. Uma das americanas me levou a knock-out quando me pediu que contasse uma história verdadeira que eu estava vivendo. Retribui na mesma moeda e fui sincero como nunca. Não me arrependo.
Mas ainda assim, quase todos estão lá sob as mesmas mentiras. “What brings you here?” sempre retornará a mesma resposta: “I don’t have what to do” e porque não vão ver TV ou jogar um jogo ou sair com os amigos? Ou dormir, ou fazer algo produtivo. Eu jogo na lata: “I’m here ’cause I feel alone, I’m trying to fill my emptiness”. E todos dão sinais de que são assim também.
Por que falar com pessoas que nunca viu (nem verá) na vida? Eu juro que não entendo. Na verdade, entendo. Eu busco uma forma de me ocupar. Mas e as pessoas? Também. As pessoas querem o mesmo que eu. Elevar, pelo menos um pouquinho, de leve, a auto-estima, acariciar o ego. Querem que alguém as veja na câmera e diga que são bonitas. Que são inteligentes, que tem um trabalho legal, que o país onde vivem é “cool”.
As pessoas querem se sentir amadas porque perderam a capacidade de amar. Ou talvez porque transbordem essa capacidade. Mas buscam isso numa relação sensível, uma relação que pode ser rompida facilmente a qualquer momento. Afinal, se você não gostar de uma pessoa, basta apertar “Block” no MSN ou no AIM ou no Facebook. É fácil terminar com uma pessoa que nunca se viu. Porque a gente só não quer se sentir sozinho até que a Rapunzel lance seus cachos pela janela ou o Príncipe Encantado chegue no seu cavalo branco e altivo.
O comportamento é tão comum que há sempre os mesmos passos. Quando lamentamos a distância. Quando as pessoas dizem que seria legal nos encontrarmos. Quando as pessoas dizem que seríamos bem vindos como hospedes nas suas casas. Quando as pessoas dizem sentir saudades. Quando as pessoas nos pedem para ir até lá. Como se fosse até a esquina.
Na verdade, não posso garantir que TODOS sejam assim, mas admito que eu sim. E disconfio que as pessoas com quem me identifico também. Todos, agora digo com certeza, temos medo de perder (ainda) mais nessa vida.
Post Revisions:
- 7 February, 2010 @ 11:40 por Melanef

February 7th, 2010 on 11:53 pm
Sinceramente…
Às vezes tenho minhas dúvidas se a internet realmente nos aproximou como seres humanos além de meras informações, como você bem disse. É fácil demais se render ao superficial do jeito que as coisas estão…
Mas, falando assim, você dá um pouco de esperança, mano… ainda há quem pare para pensar.
Gostei da experiência compartilhada.
Se cuide aí.
Abraços.
February 8th, 2010 on 5:50 pm
Zocchio,
Não quis dizer que a internet tenha nos aproximado, de forma alguma. Quis dizer que as pessoas são indivíduos mas o comportamento é genérico.